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segunda-feira, 17 de maio de 2010

PRAIAS DE ARACAJU IMPRÓPRIAS PARA BANHO, MAS DE QUEM É A CULPA?

Nos últimos dias, fomos surpreendidos pela notícia de que as praias de Aracaju estavam impróprias para o banho. A informação foi passada pela ADEMA-Administração Estadual de Meio Ambiente. O órgão é responsável, no Estado, juntamente, com o IBAMA-Instituto Brasileiro do meio Ambiente pela fiscalização e pela preservação do meio ambiente natural. Assim, com a notícia, Aracaju entra na lista das praias mais poluídas do país e talvez do mundo.

A informação divulgada pela ADEMA mim fez ouvir e ler diversas opiniões sobre o assunto. As mais comuns é que a culpa é dos banhistas que deixam lixo quando levam seus lanches para alimentar a família durante o banho, ou a culpa é da prefeitura que não limpa a praia corretamente ao final de cada dia. Caso esses fossem os culpados, o problema estava fácil de ser resolvido. Bastava uma ação forte de educação ambiental e uma política eficaz de lixeiras coletoras e contratação de mais garis para limpeza das praias. Entretanto, o problema é mais grave do que se comentam.

Para entendermos o assunto, precisamos compreender o comportamento das águas oceânicas que se movimentam o tempo inteiro através de correntes marítimas. As correntes marítimas são “rios” de águas que se movimentam dentro dos oceanos em função da atração gravitacional do sol e da lua e do movimento de rotação da terra sobre as águas oceânicas. Elas podem ser frias quando se formam em regiões polares e transformam os climas das áreas continentais por onde atuam em climas desérticos como é o caso do deserto do Saara, do Calaari na África e o deserto da Austrália. Elas podem ser, também, quentes quando nascem em regiões tropicais e deixam os climas continentais por onde banham em climas chuvosos. No Brasil, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul atua a Corrente marítima do Brasil que corre na direção Norte-Sul. Já do Rio Grande do Norte em direção ao Amapá corre na costa a Corrente marítima das Guianas na direção Sul-Norte. As duas são correntes marítimas quentes.

Como Sergipe sofre a influência da corrente marítima do Brasil toda água que é jogada no mar pelos rios São Francisco, Japaratuba e Sergipe são empurradas pela corrente marítima para as praias sergipanas, sempre na direção Norte-Sul. Em função disso as nossas praias têm um aspecto de água “barrenta” em função da grande quantidade de sedimentos suspensos na água trazidos, principalmente, pelo Rio São Francisco. Já as praias alagoanas têm a coloração transparente porque não recebe água desses rios.

Mais o que isso tem haver com a grande quantidade de coliformes fecais nas praias aracajuanas? A situação chegou a essa gravidade em função da ausência de políticas eficaz e dura dos órgãos fiscalizadores no Estado: ADEMA e IBAMA que não atuaram para proibir o processo de destruição ambiental em curso no Estado. Esse processo em Sergipe é muito forte nos municípios banhados pela Bacia do Rio Sergipe.

A bacia hidrográfica do rio Sergipe é constituída por 26 municípios, dos quais oito possuem suas terras inseridas integralmente na área da bacia: Laranjeiras, Nossa Senhora Aparecida, Malhador, Riachuelo, Santa Rosa de Lima, Moita Bonita, São Miguel do Aleixo e Nossa Senhora do Socorro. Os demais estão parcialmente inseridos, destacando-se Aracaju, Areia Branca, Barra dos Coqueiros, Carira, Divina Pastora, Feira Nova, Frei Paulo, Gracho Cardoso, Itabaiana, Itaporanga d'Ajuda, Maruim, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora das Dores, Rosário do Catete, Santo Amaro das Brotas, São Cristóvão, Siriri e Ribeirópolis. Ao longo do seu percurso, dezesseis outros rios e vários riachos vão lançando suas águas na calha principal do rio, contribuindo para sua formação e corre em direção ao Oceano Atlântico até seu extenso estuário.

Essa disposição geográfica da Bacia do Rio Sergipe que banha importante municípios sergipanos é o centro dos problemas ambientais das praias aracajuanas. A região da bacia apresenta problemas ambientais de diversas ordens, tais como:

• Os esgotos domésticos despejados sem tratamento no rio Sergipe e seus afluentes. O que chama atenção é que nem a ADEMA nem o IBAMA tem qualquer tipo de ação contra os prefeitos e o Governo do Estado pela contaminação das águas dos rios em função da ausência de políticas públicas de tratamento dos esgotos domésticos;
• Os esgotos industriais, produtos químicos com alto poder de poluição, despejados pelas indústrias existentes durante toda bacia: Sertão, Agreste, Vale do Contiguiba e Litoral. Vale ressaltar que grande parte dessas empresas, que poluem as águas de nossas bacias hidrográficas, são de propriedades da família Franco que tem ou teve cargos importantes na política sergipana: Governador, Senador, Deputado Federal, deputado Estadual Prefeitos, Vereadores e até Secretários e Ministros de Estado;
• A existência de lixeiras, em todos esses municípios, a céu aberto, que provocam a poluição do lençóis freáticos, que alimentam os rios através de nascentes. Essa ação poluidora acontece em função do “chorume” (líquido escuro contendo alta carga poluidora, o que pode ocasionar diversos efeitos sobre o meio ambiente. O potencial de impacto deste efluente está relacionado com a alta concentração de matéria orgânica, reduzida biodegradabilidade, presença de metais pesados e de substâncias recalcitrantes) e;
• O depósito de agrotóxicos utilizado nas plantações agrícolas e pastagens com poluem as águas e conseqüentemente chega ao Oceano.

Esses produtos poluidores que foram trazidos pelo rio Sergipe para o Oceano aumentou bastante em função das fortes chuvas que caíram no Estado recentemente. Isso provocou o aumento do fluxo de coliformes fecais nos rios que chegaram nas praias aracajuanas. Como a direção da corrente marítima do Brasil é Norte-Sul acabou poluindo as praias de Aracaju, mas não poluiu as praias ao Norte da capital, localizadas nos municípios da Barra dos Coqueiros e Pirambu.

Além disso, precisamos nesta análise estudar melhor a Cidade de Aracaju que cresceu muito sem preocupação, por parte dos gestores públicos, em realizar tratamento dos esgotos domésticos e em obrigar as empresas a fazer o mesmo com os esgotos que elas produzem. Nesse cenário, reina o lobby dos empresários que continuam poluindo sem qualquer tipo de punição. Para continuarem fazendo isso, financiam campanhas eleitorais para se protegerem atrás dos políticos que ganham eleições com dinheiro desses poluidores.

O reinado das construtoras em Aracaju continua muito forte através do financiamento de campanhas eleitorais de Prefeitos e Vereadores para continuarem construindo e lucrando muito, mas sem realizar obras de infra estrutura nas áreas construídas como rede de esgoto, ruas de acesso etc. Exemplo desse poder é a Zona de Expansão de Aracaju onde as construtoras continuam destruindo as lagoas fluviais que absorviam a água das chuvas para construírem condomínios luxuosos. As últimas chuvas já mostraram os problemas que isso provocará no futuro caso o ritmo das construções continuem com está, com a permissão dos órgãos públicos.

Como na Zona de Expansão de Aracaju não tem rede de esgotos, as construtoras estão fazendo valas, a céu aberto, para que os esgotos dos condomínios fechados corram para as praias da Atalaia, Aruana e Sarney. Quem quiser presenciar esse crime ambiental é só visitar praias e observar as ações das construtoras.

Portanto, dizer que a culpa pela poluição de nossas praias é do trabalhador que veio, no final de semana, com sua família tomar banho e deixou algumas bolsas de lixo na areia ou é por ignorância ou é proposital para que a população não conheça os reais culpados. A ADEMA e o IBAMA deveriam honrar mais a sigla como órgãos protetores do meio ambiente. Pois o lobby dos políticos defensores dos empresários tem prevalecido dentro desses órgãos e é a população quem leva a culpa, inclusive eu.

Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto. Concordo inteiramente com a sua opinião e acredito que os orgãos públicos ambientais devem começar a fazer cumprir melhor a legislação excelente que temos, mas infelizmente a lei aqui é a do dinheiro. Sou Engenheiro Ambiental e acabo de mudar do interior de São Paulo para Aruana e tenho notado uma quantidade enorme de lixos com tamanho reduzido ao longo de toda a praia, principalmente nas zonas de maré. Ao meu entender é bem provável que foram jogados privada abaixo e vão nos encontrar na praia.
    Nosso papel é cobrar o poder público.
    Parabéns pela iniciativa.

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